nunca mais quis ter um orgasmo

com uns 16, 17 anos eu namorava um cara meio escroto. ele era bem problemático. antes era um amigo. as coisas ruins eram muitas. ele não queria me namorar em público, por exemplo; ele ficava com amigas minhas sem me falar nada; muitas vezes ele não trepava comigo, ele trepava em mim. eu ficava só esperando ele acabar. um dia consegui acabar com ele. terminar o namoro, quero dizer. porque depois foi ele que acabou comigo. a primeira vez que gozei foi com ele. eu tinha 15 anos. depois, com 18, quando eu tinha terminado com ele (eu tive que implorar pra ele sair da minha vida mesmo sendo apaixonada por ele. ele me destruía), um dia ele apareceu lá em casa. minha família tinha viajado. ele tava chorando, pediu pra dormir lá. tinha um quarto sobrando mas não foi por isso que deixei. foi porque eu tava com muito medo. ele disse que tava com medo de fazer uma loucura (acho que tinha brigado com alguém), que tinha uma arma embaixo do banco. foi por isso que deixei ele entrar. eu tava usando minha camisola favorita. era uma camisola begezinha, com estampas de café-da-manhã: bules, xícaras, torradinhas, não lembro mais. quando fui abrir o portão pra ele, ele disse "você tá mais gorda que nunca, hein". fiquei muito chateada com isso não porque ele nunca aceitou minha gordura como eu aceitei (tranqüila, confortável), mas porque foi a primeira coisa que ele me disse quando abri o portão da minha casa porque ele tinha me pedido. então ele entrou, falei pra ele ir dormir no quarto do meu irmão. mesmo depois que tínhamos terminado o namoro, meu irmão continuou sendo amigo dele. isso me deixava muito chateada porque eu sentia que meu irmão tinha escolhido ele, não a mim. ele tinha me sacaneado muito, eu não queria que meu irmão fosse amigo de um cara que tinha me sacaneado tanto. ele entrou, ficou mais calmo, foi pro quarto, eu fui pro meu. quando eu tava tentando dormir ele entrou. pediu pra dormir lá porque tava muito triste. eu não queria. eu não deixei. ele insistiu. puxei a cama de baixo. ele começou a tentar ficar comigo. eu tava deitada já, ele ficou por cima de mim. insistindo muito tempo. eu não queria, mas ele ficava me pegando. se esfregando na minha buceta. acabei ficando lubrificada, mesmo contra minha vontade. isso me deixou com muita vergonha, com raiva, mas principalmente me deixou com um sentimento de culpa enorme durante muitos anos depois dessa noite. eu ter lubrificado fez ele pensar que eu queria. então ele ficou insistindo mais ainda! isso durou algum tempo, depois ele foi desistindo. mas ainda insistindo. ele ficou me mandando chupar o pinto dele. dizendo que se eu chupasse ele ia embora pro outro quarto. ficou insistindo por muito tempo, forçando minha cabeça na direção do pinto dele. eu tava chorando, já. depois de sei lá quanto tempo nisso, ele veio com a oferta final: se você der um beijo no meu pinto eu vou pro outro quarto.
essa foi a situação mais humilhante da minha vida. depois disso eu só me senti humilhada assim quase 10 anos depois, quando meu companheiro, que foi um cara muito legal por algum tempo, até querer usar todos os privilégios que um cara pode usar pra humilhar uma mulher (inclusive o racismo, mesmo ele sendo negro), me humilhou muito também.
então, depois que eu dei um beijo na porra da cabeça do pinto dele, ele saiu dali.
no dia seguinte, de manhã bem cedo, ele foi embora.
nunca consegui contar isso pra ninguém por muitos anos. mas principalmente eu não conseguia contar pro meu irmão. isso me fodia muito por dentro. porque ele continuava freqüentando a casa da minha mãe, andando com meu irmão, indo jogar video-game. ninguém entendia porque eu odiava ele, ou porque não falava com ele. algumas pessoas pensavam, vieram até me falar, que era dor de cotovelo porque eu ainda queria ficar com ele.
eu usei esse silêncio pra me proteger da vergonha de ter ficado lubrificada. do meu corpo ter, de alguma forma, respondido àquela agressão de maneira positiva. mas só quem eu protegi, durante quase 10 anos, foi aquele cara. um dia consegui escrever um poema sobre isso, um tempo depois consegui contar pra uma amiga, depois pra um amigo, depois pro outro cara que me humilhou.
hoje eu tô conseguindo relatar isso aqui.
mas ainda não consigo ter orgasmos direito, consegui poucas vezes, sempre com alguém. porque não gosto de me masturbar, mas além disso tem o que é mais importante pra mim: compartilhar coisas muito mágicas, íntimas assim como um orgasmo, com alguém que vai simplesmente te humilhar, te destruir depois, é uma merda.

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jogos eletrônicos

quem sou eu pra dizer se isso
faz sentido ou não?
sonhos não prometem nada e eu não
dormi muito bem à noite
mas não estou cansada, não mais
que já estava com aquilo tudo

ele chegou e bateu à porta depois de começar a abrí-la
mas não entrou imediatamente, como se
quisesse fingir alguma dignidade ainda
mas quem estava imunda era eu, porque tinha abrido a porta tantas outras vezes
e quem sou eu pra dizer a ele que as brincadeiras estavam erradas?
pra ele eu não sou muito mais que um quê, e da maneira errada, talvez falando demais
e dificultando um pouco as coisas
ele não consegue entender porque as coisas estão diferentes agora
ele nunca entendeu nada e no escuro
eu sinto que ele se sente mais confortável
pra mim também serve, dissumular a vergonha, dissolver as imagens
e o que eu não puder lembrar não vai ter acontecido, simples assim

então eu mandei tudo aquilo pro mesmo lugar onde guardo, por exemplo,:
pesadelos recorrentes
porque de alguma forma forjaram quem sou
às vezes eu sonho com ele mas tudo bem, é só um pesadelo
não é ele abrindo a porta do quarto, me abrindo. pesando em cima de mim com aquele cheiro branco demais no quarto escuro. os dentes tortos como os dedos embaixo da pele grossa e branca. não é nada disso, é só um pesadelo, não é ninguém me obrigando, me forçando a tudo aquilo, só um pesadelo.

e quando acordo esqueço o que já não lembro
mas que eu sei.

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