encontros e desencontros - microfonia

Eu fiquei de fazer uma fala, um relato, sobre um desencontro sexual. Uma experiência minha de abuso sexual. Aí eu ficava pensando sobre como eu ia falar e, com o tempo, fui ficando meio sem energia porque tem um monte de outras coisas passando pela minha cabeça no momento. Eu até ensaiei uma música, caso eu estivesse cansada pra falar, mas na verdade é bem simples: eu ia contar que um dia, quando eu era pequena, eu estava indo pra natação quando um homem passou a mão na minha bunda. Foi isso.

(...)

Bem, na verdade não foi isso. O que aconteceu mesmo é que eu era pequena e um homem, numa festa junina, me levou para um canto mais escuro e ficou esfregando o pênis em mim.

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Quer dizer, na verdade mesmo ele me estuprou.

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É óbvio que eu, pensando em mim, preferia que ele só tivesse passado a mão na minha bunda, e é claro que se ele tivesse me estuprado mesmo, teria sido bem pior. Mas sinceramente, eu acho que pro coletivo não importa tanto. As três situações são violentas e se ele não me estuprou foi porque não quis, e se não só passou a mão na bunda, foi porque deu pra fazer mais, mas é o mesmo homem e a mesma prática de violência. É isso que importa saber e admitir.

Eu fiquei muito tempo esperando a indignação das pessoas com o que aconteceu. Tinha um outro homem, na festa junina, que ficou olhando e ele balançava a cabeça negativamente e eu, que já não estava gostando do que estava acontecendo, apesar de não entender direito, tive a confirmação de que aquilo era errado. Até hoje eu tenho raiva porque esse outro homem não fez nada. Eu esperei o “fazer algo” de várias pessoas, por muito tempo. Eu queria uma revolta, uma indignação geral, e só depois de muito tempo eu entendi que o homem que me violentou não era nenhum desajustado e que esse tipo de violência – e aqui eu estou falando também de passar a mão na bunda –, acontece toda hora e que, por isso, não houve uma revolta.

A importância de espaços como estes é justamente a de a gente se indignar e se revoltar. Não com o meu, ou com o seu desencontro, mas com essa situação generalizada de violência contra a mulher, sem esquecer que o cara que fala uma gracinha na rua está praticando a mesma violência.

Agora, é claro que fica bonito eu falar assim. Parece que está tudo resolvido, que eu entendi que o mundo não é só feito de cores e que então gostaria de transforma-lo, mas no fundo eu ainda tenho algumas crises decorrentes do que aconteceu. Aí é que esse espaço tem uma outra importância: a de ser um espaço pra falar das coisas que não estão tão resolvidas.

No meu caso, esse desencontro me atrapalhou bastante. Muita coisa já ficou pra trás, eu procurei ajuda, chorei, pensei, li, dancei, namorei, conversei. A minha história não se resume a uma festa-junina-infeliz, certo? Mas tem coisas que me atrapalham ainda e que eu acho que pode ser interessante dividir.

O homem que me molestou é amigo da minha mãe e ela sabe o que aconteceu e, mesmo assim, ele esteve na minha casa várias vezes depois e eu cumprimentava ele e fingia que nada tinha acontecido. E ela sabia.

Hoje, depois de entender melhor o que aconteceu, eu conversei com ela. O duro foi constatar que foi aquilo mesmo que eu já sabia: ela sabia de tudo e mesmo assim continuou amiga dele. Como eu o cumprimentava normalmente ela achou que tudo tinha sido um grande mal-entendido.

Por 10 anos eu simplesmente esqueci que a minha mãe sabia do que aconteceu. E ainda bem que eu esqueci, porque teria sido muito difícil viver com a certeza de que ela sabia e não fez nada numa época em que eu ainda dependia muito dela. Algumas vezes o jeito que eu encontrei pra me defender foi esquecer e abafar.

(...)

Essa não foi a única estória violenta na minha vida e eu aprendi a me defender e a combater esse tipo de violência de formas diferentes.

Em 98 eu ganhei uma bolsa pra estudar nos EEUU, era tipo um intercâmbio e eu fiquei hospedada na casa de um casal, até o dia que o cara do casal chegou pra me dar um abraço e além do abraço deu uma chupada na minha orelha. Eu mandei ele parar na hora, abri o jogo com a esposa dele e saí fora de lá.

Em 2000, eu chapei na casa de uma amiga, tinha bebido e fumado, e fiquei consciente mas sem reflexos, aí veio um amigo do irmão dela, entrou no quarto, tirou minha roupa, ficou encima de mim me lambendo, e a única coisa que eu conseguia fazer era segurar minha calcinha, não tinha reflexo pra mais nada.

Enfim, seja abafando, segurando a calcinha, ou dando um escracho, a gente é sempre muito forte pra conseguir sobreviver à essas violências.

(...)

É tanta coisa acumulada que a gente vai tendo que administrar nossas energias. Começa a escolher quando vai responder quando um homem te chamar de gostosa na rua, começa a escolher em que espaços não vai admitir piadas machistas, começa a ficar cansada e a deixar um monte de violências passarem batidas. Quando se dá conta está se relacionando com mais um cara que não faz questão de estar com você. Mas não é isso mesmo que tentam fazer a gente acreditar? Que a gente
não faz diferença?

Bom, quem me conhece sabe que sou alegre, que no início do ano eu estava bonita, empolgada, cheia de amigos, projetos e vontades e que se eu me machuquei com certeza foi sem querer... foi porque algumas vezes a forma que encontrei pra me defender das violências foi calar. Bom, está constatado que calar, apesar de às vezes ser a única saída, custa caríssimo.

Então, fiquem à vontade. O microfone é nosso.

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